Após a reforma protestante “nenhum aspecto da vida humana ficou intacto, pois abrangeu transformações políticas, econômicas, religiosas, morais, filosóficas, literárias e nas instituições, de caráter definitivo; foi, de fato, uma revolta e uma reconstrução do Norte”.[1]

A reforma protestante é o fato histórico resultante de um movimento interno na igreja Católica Romana, que tem seu principal expoente no monge agostiniano Martinho Lutero.

Os reformadores eram homens cultos, de vida exemplar, que tinham prazer na leitura e na exposição da Bíblia Sagrada e defendiam que a salvação só pode ser alcançada como a Bíblia afirma: Pela graça e mediante a fé.[2]

Os principais precursores da Reforma foram John Wycliffe, professor na Universidade de Oxford; John Huss, professor na Universidade de Praga, que foi queimado por causa de sua fé; e Girolano Savonarola, monge dominicano, que foi enforcado e queimado por ordem do Papa Alexandre VI em Florença, na Itália. Esses e muitos outros foram mortos por questionarem as ações e ensinos da igreja, incompatíveis com as Escrituras Sagradas. No cárcere, já sentenciado para ser queimado vivo, John Huss disse: “Podem matar o ganso (em alemão, sua língua natal, huss é ganso), mas daqui a cem anos, Deus levantará um cisne que não poderão queimar”.

No século XVI a Europa estava no limiar de uma nova época política e social. Gutemberg revolucionara o processo de impressão de livro; Colombo descobrira a América e o descontentamento com a igreja persistia. Tudo isso preparava o terreno para a reforma. No dia 31 de outubro de 1517, cento e dois anos após a morte de John Huss, Martinho Lutero fixa na porta da igreja do castelo de Witenberg as suas 95 teses. O Cisne havia se levantado! Evidentemente outros homens foram importantes para a reforma e seus efeitos, tais como, Úlrico Zwinglio, Guillherme Farel, João Calvino e John Knox, no entanto para esse breve artigo, nos deteremos nos escritos e contribuições de Lutero.

As 95 teses de Lutero fundamentaram-se em cinco pilares, também conhecidos como os cinco solas da reforma. Sola fide (somente a fé), Sola gratia (somente a graça), Solus Christus (somente Cristo), Sola scriptura (somente a Escritura) e Soli Deo gloria (glória somente a Deus).

As diversas obras sobre a vida de Lutero relatam que ao lecionar o livro de Romanos o monge foi impactado pela clareza do texto sagrado, “Visto que a justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O justo viverá por fé.” (Romanos 1:17, ARA[3]). Dentre outros, esse texto fundamenta o pilar “Sola fide”.

Afirmava Lutero que se a fé é o meio humano pelo qual podemos ser salvos, então a graça é o recurso divino no qual colocamos a nossa fé. Só a graça pode lhe dar a salvação eterna, “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós; é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie”. (Efésios 2:8-9, ARA). Dentre outros, esse texto fundamenta o pilar “Sola gratia”.

Lutero também disse que as indulgências não removiam a culpa e que só Jesus poderia perdoar pecados. Sua conclusão foi baseada em vários textos das escrituras que nos afirmam que só Jesus tem poder para salvar, dentre outros: “A salvação só pode ser conseguida por meio dele. Pois não há no mundo inteiro nenhum outro que Deus tenha dado aos seres humanos, por meio do qual possamos ser salvos, assim como, Só Jesus Cristo tem poder para nos levar a presença de Deus”. (Atos 4:12, NTLH[4]), e, “Jesus respondeu: – Eu sou o caminho, a verdade e a vida; ninguém pode chegar até o Pai a não ser por mim.” (João 14:6, NTLH). Esses textos fundamentam o pilar “Solus Christus”.

O quarto pilar da fé evangélica é que só a bíblia é a regra de fé e prática de um cristão. Os reformadores, quase todos eram padres piedosos que entendiam que para voltar a essência da fé era indispensável voltar a bíblia, porém a leitura da bíblia era proibida aos leigos (aqueles que não faziam parte do clero), situação que perdurou até o Concílio Vaticano II (1961-1965).

Eles fundamentaram esse pilar na própria palavra de Deus, conforme o ensinamento de Paulo que diz: “Pois toda a Escritura Sagrada é inspirada por Deus e é útil para ensinar a verdade, condenar o erro, corrigir as faltas e ensinar a maneira certa de viver. E isso para que o servo de Deus esteja completamente preparado e pronto para fazer todo tipo de boas ações”. (2 Timóteo 3:16-17, NTLH). “Sola scriptura”.

O quinto pilar da fé protestante é: Só a Deus seja a glória, premissa baseada, dentre outros, no texto de Isaías 42:8 (NVI[5]), “Eu sou o Senhor; este é o meu nome! Não darei a outro a minha glória nem a imagens o meu louvor.” “Soli Deo gloria”.

Em suma, a reforma protestante refere-se ao movimento religioso interno, com o objetivo inicial de reformar a Igreja Católica Romana, mas como foram expulsos e por terem resistido a contrarreforma (Concílio de Trento), o movimento resultou no fato histórico que deu nascimento aos cristãos “reformados”, conhecidos até hoje como “protestantes”.

Mas apesar dos objetivos nitidamente bíblicos, a reforma não limitou-se ao aspecto religioso, tendo exercido profundo impacto na ética, cidadania, educação e vida social dos países onde foi implantada, influência que perpetua-se no tempo até os dias de hoje. Sobre isso discorreremos na próxima edição.


Pr. Daniel Fich de Almeida                

Pastor presidente da Assembleia de Deus de Ibiaçá, assessor jurídico da Ciepadergs, advogado, especialista em Estado Constitucional e Liberdade Religiosa pela Universidade Presbiteriana Mackenzie em parceria com o Ius Gentium Conimbrigae da Universidade de Coimbra em Portugal e Regents Park College da Universidade de Oxford, na Inglaterra.


[1] EBY, F. História da educação moderna. 2.ed. Porto Alegre: Globo, 1976, p.1.

[2] Efésios 2.8-9

[3] Tradução da Bíblia. ARA (Almeida Revista e Atualizada)

[4] Versão da Bíblia. NTLH (Nova tradução na linguagem de hoje)

[5] Versão da Bíblia. NVI (Nova Versão Internacional)